terça-feira, 8 de novembro de 2011

O Teatro Mágico - Cidadão de Papelão

   Em "Cidadão de Papelão" Fernando Anitelli e sua trupe, O Teatro Mágico, descrevem a realidade de uma sociedade capitalista no extremo do seu consumismo; mostra o descaso, a indiferença e a falta de valores humanos. Tanto na música, quanto no clipe, os personagens principais são aqueles às margens da sociedade, invisíveis e desprezados tentando dignificar-se diante de uma sociedade injusta e egoísta.
   Na animação do clipe abaixo é possível notar a forma como que a sociedade trata os catadores de lixo, como ignoram a presença dos garis e os executivos de terno e gravata, retratados como zumbis, cobiçam cada vez mais o dinheiro, trabalham tanto sem ter tempo para gastá-lo.




Confiram a letra:

Cidadão de papelão

O Teatro Mágico


O cara que catava papelão pediu
Um pingado quente, em maus lençóis, nem voz
Nem terno, nem tampouco ternura
À margem de toda rua, sem identificação, sei não
Um homem de pedra, de pó, de pé no chão
De pé na cova, sem vocação, sem convicção


À margem de toda candura
À margem de toda candura
À margem de toda candura


Um cara, um papo, um sopapo, um papelão


Cria a dor, cria e atura
Cria a dor, cria e atura
Cria a dor, cria e atura


O cara que catava papelão pediu
Um pingado quente, em maus lençóis, à sós
Nem farda, nem tampouco fartura
Sem papel, sem assinatura
Se reciclando vai, se vai


À margem de toda candura
À margem de toda candura


Homem de pedra, de pó, de pé no chão

Não habita, se habitua
Não habita, se habitua


Fonte:
http://letras.terra.com.br/o-teatro-magico/732486/
http://www.youtube.com/ acesso em 08/11/2011 às 00:16

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Bicicloteca em São Paulo: leitura para moradores de rua

    A Revolução dos Bichos, de George Orwell (1903-1950), é o livro que mais impressionou o ex-morador de rua Robson Mendonça, 60, gaúcho de Alegrete.
   Por gostar de ler, e não poder pegar nada emprestado de bibliotecas públicas por não ter comprovante de endereço, ele tinha um sonho. Quando melhorasse de vida, criaria uma biblioteca só para pessoas da rua.
   Ontem, em pleno Marco Zero da capital paulista, na praça da Sé, lá estava ela. A bicicloteca -uma bicicleta equipada com um baú atrás com centenas de livro dentro- fez a sua estreia.
   "Até agora [por volta das 15h] 80 livros foram retirados", diz Mendonça, exibindo a lista de nomes escritos à mão em um caderno. Quem pega um livro tem duas opções: ou passa adiante para quem quiser ler, ou devolve para a bicicleta.
 Todo acervo do projeto, bancado exclusivamente por parceiros privados, é fruto de doações. No baú, títulos de Truman Capote, Lima Barreto e Graciliano Ramos.
  Mendonça conta que perdeu a mulher e dois filhos em um acidente. Essa foi uma das causas que o levou para a rua, onde permaneceu por seis anos, até 2003.
 "Perdi tudo após um golpe. Com documentos falsos, levaram o que tinha na conta do PIS/PASESP", diz. Hoje, ele dirige uma ONG para pessoas das ruas. "Atendemos 380 desde janeiro". 


Fonte: Folha de SP acessada em 08/11/2011 às 09h43

O trabalhador invisível - A exclusão social vivida por garis


    Durante oito anos, o psicólogo social Fernando Braga da Costa, da Universidade de São Paulo (USP), vestiu um uniforme e, com a vassoura em punho, passou a participar do trabalho da equipe de limpeza do Instituto de Psicologia da mesma instituição. A experiência resultou na dissertação Garis – Um estudo de psicologia sobre invisibilidade pública, na qual defende que, com frequência, a maioria das pessoas percebe o outro de acordo com o status social de seu trabalho.
   O psicólogo optou por vestir-se de varredor de rua para vivenciar a situação psicológica desse grupo de trabalhadores. Ele notou que, de fato, essas pessoas foram tratadas como “invisíveis” por alunos, professores e outros profissionais que circularam pela universidade durante a pesquisa. “Conhecia muitas das pessoas, porém, todas passavam sem me olhar. Em determinado momento, um professor se aproximou e interrompi a varrição para cumprimentá-lo, debruçando-me sobre a vassoura. Ele não me notou. Chegou a esbarrar no meu ombro e nem sequer parou para pedir desculpas”, conta o pesquisador, ressaltando que, em outra ocasião, sem o uniforme, encontrou acidentalmente esse colega e foi notado por ele.
  Segundo Costa, a invisibilidade social repercute na autoestima desses profissionais. A percepção de que são marginalizados restringe sua convivência no ambiente de trabalho aos companheiros de função. É comum que evitem o contato visual para se proteger da violência social. Outro dado levantado, nos sindicatos, é que é muito raro um gari mudar de profissão, o que sugere a exclusão associada à divisão social do trabalho.




Fonte: Mente e Cérebro - artigo - acessado em 07/11/2011 às 22h45
http://www2.uol.com.br/vivermente/artigos/o_trabalhador_invisivel.html

Aterro do Jardim Gramacho fecha em Dezembro após 35 anos

      RIO - Depois de 35 anos de operação, o Aterro de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, deixará de operar em dezembro deste ano. A decisão foi tomada após reunião na segunda-feira, na sede da Secretaria do Ambiente, com o prefeito de Duque de Caxias, José Camilo Zito (PSDB), o secretário Estadual Carlos Minc, a presidente do Inea (Instituto Estadual do Ambiente), Marilene Ramos, o secretário municipal de Meio Ambiente, Samuel Maia, e representantes da Comlurb. No dia 14 de março haverá uma nova reunião para a elaboração do termo de encerramento do local.
   Os cerca de 5 mil catadores que trabalham no aterro, o maior da América Latina, passarão por cursos de capacitação e receberão uma bolsa de seguro desemprego, com valor ainda a ser definido. Os recursos, cerca de R$ 2 milhões, virão do Fecam (Fundo Estadual de Conservação Ambiental e Desenvolvimento Urbano) e da Fundação Nacional de Saúde. Cerca de serão investidos na qualificação dos catadores
    Com os recursos da exploração do gás do aterro feito pela empresa Nova Gramacho, as ruas do bairro serão recuperadas com a criação de um Fundo Municipal. Quatro veículos também serão comprados pela prefeitura para serem entregues às cooperativas de catadores de lixo reciclável, estabelecidas no bairro Jardim Gramacho. A previsão é que os veículos sejam entregues em três meses. Outros recursos dos governos federal e estadual serão disponibilizados para a coleta seletiva e inclusão dos catadores.
    O Aterro de Jardim Gramacho tem extensão de 1,5 milhão km² e foi criado em 1976 durante o regime militar. Aproximadamente 8 mil toneladas de lixo são vazadas no local por dia, destes 60% são provenientes do município do Rio. O gás produzido é explorado pela empresa Nova Gramacho, de São Paulo, que já está vendendo parte da produção para Petrobras.





Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/rio/mat/2011/02/15/aterro-de-jardim-gramacho-fecha-em-dezembro-apos-35-anos-de-operacao-923808045.asp#ixzz1d4Rucuo2
© 1996 - 2011. Todos os direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Fonte: O Globo - Rio. acessado em 07/11/2011 às 22h20

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Lixo na rua, lixo na mente

A situação no país só não é ainda mais grave graças aos catadores
Washington Novaes*
O Estado de S. Paulo - 09/10/2009


   Desde o último domingo a cidade de São Paulo está mandando para aterros em outros municípios as 13 mil toneladas diárias de lixo domiciliar e comercial que produz, pois se esgotou a capacidade de seu último aterro em funcionamento e ainda não está licenciada a área adicional de 435 mil metros quadrados para onde se pretende expandir o São João (Estado, 2/10). 

   Mais de uma vez já foram mencionados neste espaço maus exemplos que o autor destas linhas documentou em Nova York (EUA) e Toronto (Canadá). Na primeira, deixou-se esgotar o aterro para onde iam 12 mil toneladas diárias de resíduos. E a solução foi transportá-las diariamente em caminhões para mais de 500 quilômetros de distância, no Estado da Virginia, e depositá-las num aterro privado, ao custo de US$ 720 mil por dia (US$ 30 por tonelada para o transporte, outro tanto para pagar o aterro). Em Toronto também se esgotou o aterro para onde iam 3 mil toneladas diárias. E se teve de implantar um comboio ferroviário para levá-las a 800 quilômetros de distância. São apenas dois de muitos exemplos. No Brasil mesmo, Belo Horizonte já está mandando lixo para dezenas de quilômetros de distância. O Rio de Janeiro tem de exportá-lo para a Baixada Fluminense. Curitiba esgotou o seu aterro, como muitas outras capitais. 

    Mas há boas notícias também. Uma delas foi anunciada pelo próprio ministro do Meio Ambiente: vai criar um programa de remuneração para os catadores de lixo no Brasil, que já são cerca de 1 milhão. É graças aos catadores que não temos uma situação ainda mais grave no País, já que são eles que encaminham para a reciclagem em empresas (em usinas públicas a porcentagem é insignificante) cerca de um terço do papel e papelão descartado, uns 20% do vidro, talvez outro tanto de plásticos e a quase totalidade das latas de bebidas. 

    Mas é preciso avançar mais: implantar coleta seletiva em toda parte, encarregar cooperativas de reciclagem de recolher os resíduos já separados, construir usinas de triagem operadas e administradas por elas, onde se pode reciclar cerca de 80% do lixo recolhido - transformando todo o lixo orgânico em composto para uso na jardinagem, contenção de encostas, etc.; todo o papel e papelão, em telhas revestidas de betume, capazes de substituir as de amianto com muitas vantagens; transformando todo o plástico PVC em pellets (para serem utilizados como matéria-prima) ou em mangueiras pretas; moendo o vidro e vendendo-o a recicladoras, assim como latas de alumínio e outros metais. Por esses caminhos se consegue reduzir para 20% o lixo destinado ao aterro. Gerando trabalho e renda para um contingente hoje sem nenhuma proteção. 

    Outra boa notícia (Estado, 2/10) é a de que a Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo e a Cetesb concluíram a vistoria dos últimos 48 lixões em território paulista. Para 18 deles já há soluções apresentadas pelas prefeituras. Outros 22 apresentarão suas soluções ainda este mês e 7 já estão em processo de interdição; 13 lixões foram fechados nos últimos dois anos. É uma contribuição importante, já que quase metade do lixo domiciliar e comercial no País continua indo para lixões a céu aberto. 

    Não será fácil equacionar a questão. Segundo estudo da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), implantar um aterro capaz de receber 2 mil toneladas diárias de resíduos custa em média R$ 525,8 milhões; de médio porte, para 800 toneladas/dia, R$ 236,5 milhões; e de pequeno porte, para 100 toneladas/dia, R$ 52,4 milhões (Estado, 7/9). Quantas prefeituras têm capacidade financeira para esse investimento, lembrando que a produção média de lixo por pessoa no País já está acima de um quilo por dia? Não por acaso, o mercado da limpeza urbana, segundo estudo da Unesp, está em R$ 17 bilhões anuais. Mas não bastasse tanto lixo, ainda importamos desde janeiro de 2008 mais de 220 mil toneladas de lixo, pagando R$ 257,9 milhões, para ser reciclado e reutilizado em vários setores industriais (Estado, 26/7). 

   E há outros problemas. Diz, por exemplo, o noticiário deste jornal (16/8) que a Cetesb identificou 19 áreas contaminadas por lixo tóxico só no Bairro da Mooca, que ocupam 300 mil metros quadrados - herança de seu passado industrial. Será preciso descontaminar essas áreas, com altos custos. E encontrar depósitos para o lixo perigoso. 

   Talvez num deles se possa depositar também o altamente perigoso lixo político que está invadindo nossa vida pública e poderá ter consequências funestas. Pode-se começar lembrando as declarações do ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, segundo quem "forças demoníacas" têm criado obstáculos ao licenciamento ambiental da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu (Estado, 30/9). A referência era a ONGs, como o Conselho Indigenista Missionário e vários outros movimentos sociais, além do Ministério Público Federal, que criticam o projeto. Mas atinge também estudos de universidades que têm demonstrado a precariedade das avaliações sobre consequências ambientais, sociais, políticas e econômicas daquela usina e pedido novos estudos, inclusive sobre o custo da implantação, ora estimado em R$ 9 bilhões, ora em R$ 30 bilhões. Sem argumentos, o ministro prefere demonizar os críticos - um caminho perigoso, porque o passo seguinte seria exorcizá-los, talvez bani-los da vida pública - ou coisa pior. 

   Na mesma linha, as afirmações do governador de Mato Grosso do Sul, André Puccinelli, de que o ministro do Meio Ambiente é "maconheiro" e "homossexual" e que gostaria de "estuprá-lo em praça pública"(!). E, para completar, o presidente do PSC, Vitor Nósseis (O Popular, 3/10), que, para explicar a migração de políticos para outros partidos, comparou-a a "uma relação entre marido e mulher": "Se o dinheiro sai pela porta, a mulher sai pela janela." 

    Como se pode avançar na política com tanto lixo? 

*Washington Novaes é jornalista 
Artigo originalmente publicado no jornal O Estado de S. Paulo, na seção Espaço Aberto


Fonte: http://planetasustentavel.abril.com.br
acesso em 03/11/2011 às 12:35

O extraordinário Tião Santos

- Entrevista:
Sucena Shkrada Resk 
- Edição: Mônica Nunes
Planeta Sustentável - 30/05/2011



Depois de protagonizar o documentário “Lixo Extraordinário”, ao lado do artista plástico Vik Muniz, idealizador do projeto, e de seus colegas mais próximos, claro que a vida de Tião Santos, catador de material reciclável do Aterro Controlado do Jardim Gramacho, em Duque de Caxias/RJ, nunca mais foi a mesma. Ele encontrou no filme um aliado poderoso para a causa que abraçou quando assumiu a presidência da associação da comunidade: a de melhorar a qualidade de vida dos catadores. E tem feito boas conquistas.



      O Jardim Gramacho deverá ser desativado em 2012 e os governos municipal e estadual já anunciaram projetos para a formação de centros de referência em reciclagem, além de parcerias com a iniciativa privada para a capacitação dos catadores. O terreno foi, por décadas, um imenso lixão, considerado um dos maiores da América Latina. E foi justamente esse grupo de homens e mulheres, que sobrevivem das toneladas de resíduos lá jogados, que se tornou protagonista de um trabalho de recomposição da dignidade pela arte. E tudo aconteceu por conta da inquietação do artista plástico brasileiro Vik Muniz e de seu desejo de conhecer o local e produzir mais um trabalho espetacular, envolvendo a comunidade. 

     Seu documentário, Lixo Extraordinário (Waste Land, em inglês), lançado no ano passado e produzido entre 2007 e 2009 no Aterro Controlado de Gramacho - onde trabalham cerca de 2 mil pessoas, responsáveis pelo sustento de, pelo menos, três mil - retrata muito bem essa intenção, que transformou a vida de todos, mas especialmente de Tião Santos.

     Sebastião Carlos dos Santos, 32 anos, natural de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, nunca foi tão assediado como nos últimos meses - principalmente pela mídia. Ele é presidente daAssociação de Catadores de Material Reciclável de Jardim Gramacho e tem um jeito natural de líder que não só o colocou nessa posição, como também lhe garantiu um papel de destaque no filme que concorreu ao Oscar este ano. 

   Devido a sua atuação e a essa indicação, Tião ficou famoso. E usa sabiamente essa fama para ajudar a valorizar o trabalho dos catadores que, hoje, devem ser cerca de 800 mil pessoas, em todo Brasil, segundo o Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis, do qual também faz parte. 


   Apesar de trabalhar há 11 anos no aterro do Jardim Gramacho, Tião conta que sua familiaridade com o ‘lixo’ vem desde os 11 anos de idade. Sua mãe, dona "Geruza", por 25 anos o sustentou e a seus sete irmãos, trabalhando no aterro, enquanto seu pai Carlos (falecido há três anos) foi estivador e sindicalista no Cais do Porto.

     Novos caminhos estão sendo abertos. Entre eles, está a oportunidade - e, ao mesmo tempo, o desafio - de coordenar a logística do movimento recém-lançado, o Limpa Brasil*, baseado na iniciativa internacional Let`s do It (leia reportagens sobre esse movimento no final desta entrevista) e de ser palestrante em eventos temáticos realizados pelo país. Nesta entrevista exclusiva ao Planeta Sustentável - concedida durante o IV Fórum de Comunicação e Sustentabilidade, em Belo Horizonte, do qual participou -, ele fala um pouco sobre sua trajetória e confessa que um dos seus sonhos é concluir os estudos (formou-se até o 2º ano do ensino médio) e ir mais longe: quer cursar a faculdade de Sociologia ou de Ciências Políticas. Alguém duvida que ele vai longe?

O que você conserva inalterado em seu aprendizado de vida, desde sua infância, até agora?
Sem ser demagogo, o que eu não mudei foi a honestidade, que continua inabalável e o compromisso que tenho com as pessoas. Desde pequeno estou neste trabalho, sou de uma família de catadores. E mesmo nos momentos em que não estive na atividade, sempre me solidarizei com a categoria. Eu me cobro muito. Mas se eu não for desse jeito, também não vou me sentir bem. Acredito que a gente deve ter responsabilidade e humildade, acima de tudo. Hoje, transito nos extremos, por isso, preciso saber qual é o meu papel, de onde eu sou, quem sou e para quem é que tenho de reverter tudo isso. Desde pequeno, comecei a ter noção disso tudo. Teve vezes em que pensei em abandonar tudo, mas o conceito ético me chamou de volta para esse caminho.


O que mais o marcou nessa trajetória, já que trabalhou diretamente em um lixão, onde as condições são as mais precárias?

Era um lixão mesmo, depois é que virou um aterro controlado. Vazava chorume, vivia pegando fogo, o gás não era canalizado e lá ainda moravam pessoas. Não me acostumo, até hoje, em ver crianças trabalhando em aterros clandestinos. Outra coisa que me incomoda muito é a questão da falta de acesso à habitação, à infraestrutura, ao saneamento básico e à educação. Mas eu sei que a gente vai mudar essa história. Meu sonho é pegar um trator, derrubar os barraquinhos e depois ver tudo construído dignamente. Ter uma casa traz uma noção maior de cidadania. Como é possível se sentir cidadão, se se vive junto e dentro do lixo? Não há dignidade na pobreza, que só é bonita para intelectual. 



Como você se sente como agente político, que representa hoje uma categoria tão importante no Brasil?

Quando participei de uma reunião ministerial, em que representei os catadores e se discutiu o que teria de ser regulamentado dentro da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), eu dei uma respirada e pensei: "Nossa! Eu estou numa sala, no bastidor do poder governamental, decidindo sobre praticamente o futuro da vida de um milhão de pessoas!". Aí me veio à cabeça, como é que deputados e senadores têm responsabilidade para fazer o mais correto na votação de um projeto tão importante para o povo, como este e, às vezes, não estão nem aí pra isso (já que demorou praticamente 20 anos!). Senti o peso de minha responsabilidade e percebi que tinha de fazer o meu melhor e, mesmo assim, ainda teria falhas para trazer os anseios e as necessidades da categoria, para que todos sejam atendidos.

Antes de "Lixo Extraordinário", outro documentário foi feito em Gramacho, enfocando a vida de uma catadora, a Estamira, que deu nome ao filme. Você a conhece?

Eu conheço dona Estamira desde pequeno, mas só soube o nome verdadeiro dela quando o filme foi lançado. Sabe aquela coisa de criança e adolescente de implicar com os mais velhos? Como ela falava que não acreditava em Deus, a gente fazia brincadeiras e ela rebatia. Depois de adulto é que soube de sua história. Mas foi em Gramacho que ela foi aceita como é. 

E como você e seus amigos do aterro se tornaram os principais personagens de "Lixo Extraordinário"?

Justamente porque a ideia do documentário era também de mostrar que o aterro controlado tinha a história de muitas vidas. E veja como o universo conspira a nosso favor! Cinco anos antes, a gente queria fazer um documentário que contasse a história dos catadores. O de Estamira é bom, temos respeito, mas só conta a vida dela. Então, eu e meus amigos "Zumbi" e "Gordinho" pegamos uma câmera na mão e filmamos lá, de forma bem artesanal. Colocamos esse vídeo de cinco minutos no Youtube. Foi aí que Vik acessou o filme e soube de nossas condições. Foi aí que começou tudo. Com o trabalho dele, conseguimos contar o que a gente queria de nossa realidade.

E quais são suas expectativas para o futuro?

Que aconteça a inclusão dos catadores na implementação da coleta seletiva e da logística reversa, previstas na Política Nacional de Resíduos Sólidos. Assim, cada resíduo pode ter seu destino correto e o catador trabalhar de forma adequada, sem sofrer discriminação. Dentro de um lixão ou aterro controlado, a gente sofre todo o tipo de mazela de saúde, social, com risco constante de acidente e de ser mutilado ou morto. Meu amigo de infância "Zumbi" sofreu um dos piores acidentes que eu presenciei em minha vida. Graças a Deus ele sobreviveu! Uma corrente quebrada sobre uma tampa, amarrada por borracha, caiu, e ele foi arrastado. Quebrou vários ossos. Hoje, tem várias platinas no corpo e é uma pessoa importante no nosso grupo, responsável por nossa biblioteca. Chegou a encontrar aproximadamente 500 livros no lixo, que juntou para criar esse espaço, fora o que a gente recebeu de doação, após o documentário. 

Você foi convidado para participar do Limpa Brasil? Qual o seu papel nesse movimento?

É o de organizar e mobilizar as cooperativas, para que todo material potencialmente reciclável tenha esse fim. Para isso, deverá ser feito um mapeamento, por meio de um manifesto de resíduos que comprove que teve o destino correto. Meu segundo papel é ensinar como se faz coleta seletiva e separação de lixo, nos dias das coletas programadas, durante as mobilizações com a participação da sociedade. A primeira ação será no Rio de Janeiro, no próximo dia 5, do meio ambiente. 





Fonte: http://planetasustentavel.abril.com.br
acesso em 03/11/2011 às 03:36

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Tião Santos na campanha da Coca-Cola 2011

   Após protagonizar o documentário “Lixo Extraordinário”, Tião Santos, o presidente da ACAMJG - Associação dos catadores do aterro Metropolitano do Jardim Gramacho, conta sua história em propaganda veiculada nacionalmente pela Coca-Cola.

 

 


 

 

Fonte: www.youtube.com

acesso em 01/11/2011 às 00:40